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Jair da Rosa Pinto: O único Campeão do Mundo

Jair Rosa Pinto é eterno. Daqueles de quem os mais experientes falam com a saudade devida. Quando se pensa num futebol ideal, naquele estilo de jogo que encantava os olhos, impossível nos tempos de aptidão física extrema de hoje, é à um Eterno como esse que as lembranças se voltam. Quando se pensa em mais que um líder em campo, daqueles que entra no vestiário, sacode o time e conquista a vitória, é à sua memória que recorremos.

Carioca da gema, Jair Rosa Pinto nasceu em Quatis, no Rio de Janeiro, em 21 de março de 1921. Começou sua carreira no Madureira em 1938, onde ganhou notoriedade ao formar um ataque respeitável. Em 42 se transferiu ao Vasco da Gama, clube que efetivamente o projetou. Por lá ficou até 47, quando se transferiu ao arqui-rival cruz-maltino, o Flamengo. No clube da Gávea ficou por 2 anos, de onde finalmente se transferiu ao Palmeiras. Segundo ele mesmo declarava: "Já pensava no Palmeiras há muito tempo, pois gostava do clube. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida".

Dono de uma canhota possante, Jair se destacava pela qualidade nos dribles curtos, passes precisos e um chute inacreditável para quem possuia aquelas canelas finas. Numa época em que a bola mais parecia um tijolo de tão pesada, Jair cobrava faltas como ninguém. Tanto que foi um dos primeiros jogadores a conseguir impor uma curva na trajetória da bola ao cobrar faltas.

Tão notório quanto seu futebol era a personalidade de Jair. Com as declarações de que: "Eu é que escalava o time do Palmeiras" e "Técnico de futebol não existe", Jair mostrava que "líder" era uma palavra que não representava a dimensão de seu comando junto ao elenco. Seus "chacoalhões" no vestiário eram famosos, e por mais de uma vez foram decisivos na história do Palmeiras.

Um deles foi no Campeonato Paulista de 1950. Na decisão, o Palmeiras enfrentava o São Paulo. Bastava um empate para ficarmos com o título. O Pacaembú estava lotado daquele janeiro de 1951. Mas logo no começo da partida o Palmeiras sofreu um gol, o que deixou a equipe nervosa. No intervalo, o ETERNO Jair chamou a responsabilidade, exaltando os jogadores a fazerem por merecer aquela conquista, lembrando da força e grandeza da camisa verde. A resposta foi inevitável. Em campo a equipe se mostrou mais decidida, arrancou o empate aos 16min., quando Jair fez um lançamento espetacular de mais de 30mts. no peito do baixinho Achilles, que mandou a bola pro fundo da rede. Golaaaaço! O time segurou o resultado até o final, e trouxe um lindo o título para o Palmeiras.

Aqueles anos realmente marcaram a história do Verdão. Naquela oportunidade o time conseguiu a proeza de ganhar 5 Títulos consecutivos entre Torneio Início 1950, Campeonato Paulista 1950, Taça Cidade de São Paulo 1951, Rio-São Paulo 1951 e a Copa Rio 1951, torneio organizado pela então Confederação Brasileira de Desportos para representar uma Copa do Mundo Interclubes, que poderia resgatar a auto-estima nacional, após a derrota na Copa de 1950. O que efetivamente o Palmeiras fez. E mais uma vez, Jair Rosa Pinto, o Jajá, foi fundamental.

Na decisão do torneio, o Palmeiras enfrentava a Juventus-ITA, num Maracanã lotado, ávido para incentivar as cores verde e branca, mas também apreensivo por temer a repetição do Maracanaço do ano anterior, quando a derrota para o Uruguai na final da Copa emudeceu a nação. Mais uma vez o Palmeiras só precisava do empate, já que havia vencido a primeira partida por 1x0. O 1º tempo acabou em 1x1 com gols de Praest pela "Vecchia Signora" e Rodrigues, pelo Palmeiras. No intervalo, mais uma ação de Jair. Ciente do "fantasma" da Copa do Mundo, Jair elevou a voz, ressaltando que daquele elenco, apenas ele, Rodrigues e Juvenal haviam participado do "fiasco" do ano anterior e que por isso, o "trauma" era só dos três. Assim, todos deveriam esquecer o que havia acontecido e apenas jogar futebol. A chamada produziu efeito e o time entrou em campo sedento pela conquista. Apesar de ainda levar um gol aos 8min. o time manteve a postura e chegou ao 2º gol com Liminha, aos 22 do 2º tempo, que selou o placar de 2x2, suficiente para trazer o título tão almejado ao Palmeiras - e ao Brasil, que não cansou de fazer honras àquele time que lhe resgatara a dignidade no futebol internacional.

Como lembra o goleiro Oberdan Catani, presente naquela conquista: "Jair realmente estava empenhado em vencer. Obviamente todos queríamos ganhar, mas para o Jair parecia ser uma questão de honra. Ele jogou muito, como se sua vida dependesse disso."

E nas palavras do próprio Jair: "Eu me lembro dessa final com grande carinho. Eu tinha jogado a Copa do Mundo de 1950 e me lembrava do silêncio da torcida após a derrota para o Uruguai. Quando fizeram o Torneio, eu queria vencer de qualquer maneira. Lógico que não era a mesma coisa, mas daria para dar um certo conforto. A equipe da Juventus era muito forte e havia nos goleado na 1ª partida (fase classificatória). Mas nós conseguimos empatar o jogo na finalíssima . E eu acabei erguendo a Taça!"

Jair Rosa Pinto ainda seria Campeão do Torneio Rio-São Paulo daquele ano e ficou no Palmeiras até 1955. Jair jogou até os 40 anos e ainda passou pelo Santos São Paulo e Ponte Preta. Seu exemplo de postura dentro do campo é uma lembrança que norteia atletas até hoje. Leia abaixo uma entrevista de Jair Para a edição histórica de uma Revista comemorativa do Palmeiras:

Como e quando ocorreram os primeiros contatos com a bola?
O cara, quando nasce para o futebol, vai chutando tudo. É a única profissão que é difícil para aprender - ou você sabe ou você não sabe. QUando tinha 6, 7 anos já adorava futebol. E já era bom!

Como e quando começou a vida profissional?
Foi no Madureira-RJ, quando eu tinha 17 anos.

Como e quando chegou ao Palmeiras?
Foi um caso especial. Eu jogava no Flamengo e já pensava no Palmeiras há muito tempo, pois gostava do clube. Aí aconteceu o fatídico jogo Falmengo x Vasco, em que me culparam pela derrota. Aí, Ferrucio Sândoli e Abílio Riccó, que eram diretores do Palmeiras, apareceram no momento exato. Fui para o Palmeiras em agosto de 1949 e fiquei por 6 anos.

Quais foram sesu principais títulos no Palmeiras?
Paulista de 1950, Copa Rio 1951 e Rio São Paulo 1951

Quais foram seus principais técnicos no Palmeiras?
Eu não sou contra ninguém, mas técnico de futebol não existe, nem no Brasil e nem em nenhum outro lugar. O Palmeiras teve uma porção. Eu arrumei um time para o Palmeiras. O Palmeiras ganhou títulos por minha causa. Eu conheço futebol.

Qual foi a melhor equipe do Palmeiras em que você atuou?
Eu não fiz parte do melhor time que o Palmeiras já teve. Foi aquele do tempo de Ademir da Guia, Dudu, Tupãzinho, Servílio. Mas no meu tempo o Palmeiras também era muito bom. Tinha Salvador, Juvenal, Tulio, Dema, Lima Achilles... ganhar do Vasco no Maracanã e da Juventus da Itália não é pra qualquer um.

Quais os seus momentos mais felizes no Palmeiras?
Desde que cheguei até ir embora. Eu é que escalava o time do Palmeiras.

Você era o líder?
No Campeonato de 50 eu manobrava o time. Na Copa Rio eu manobrava o time. Líder era pouco

Qual o jogo que mais o marcou no Palmeiras?
O que mais marcou fou um São Paulo e Palmeiras, na decisão do Paulista de 1950. Eu fiz um lançamento de 30, 40 metros e coloquei a bola no peito de Achilles. Foi algo inédito e nunca mais eu vi algo parecido. A bola entrou no gol e ganhamos o campeonato

O que representou o palmeiras em sua vida?
O Palmeiras me ajudou muito, por que eu deixei o Flamengo acusado de estar "na gaveta" do Vasco. Aquilo foi uma grande injustiça, mas perdi o emprego no Flamengo no domingo e na quarta-feira estava empregado no Palmeiras. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.



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