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Entrevista com Leivinha

Entrevista com Leivinha

João Leiva Campos Filho, o Leivinha, ainda é ídolo da torcida palmeirense. O carinho dos torcedores permanece o mesmo dos tempos de atleta. O mesmo não se pode dizer do tratamento dado pela diretoria do Palmeiras. Leivinha afirma categoricamente que foi usado pelo presidente Mustafá Contursi. Por decorrência disso, o ex-centroavante não freqüenta o clube há dois anos. Com ar não apenas de insatisfação, mas também de tristeza e decepção, ele deixa claro que sente falta do convívio com jogadores de outras gerações que passaram pelo clube.


Natural de Novo Horizonte, mas criado em Lins, interior de São Paulo, Leivinha começou a se projetar no futebol quando aos 16 anos seguiu para a Portuguesa, depois de profissionalizar-se no Linense. Entretanto, foi no Palmeiras, entre 1971 e 1975, que o atleta conseguiu glórias e títulos. Com a camisa do Verdão, Leivinha marcou 104 gols e conquistou os Paulistas de 72 e 74 e os Brasileiros de 72 e 73.Após um período marcante no clube do Parque Antarctica, o centroavante seguiu para o Atlético de Madrid, ao lado do zagueiro Luis Pereira. Seu carisma continuou em evidência, e na Espanha o então ídolo palmeirense recebeu o apelido de "El Príncipe". No Atlético, Leivinha conquistou o Espanhol de 1977 e atualmente ainda recebe homenagem dos torcedores madrilenhos, onde possui até fã-clube.

Dono de uma técnica invejável, Leivinha era um jogador completo. Cabeceava com desenvoltura e sua habilidade envolvia os adversários. Não à toa, chegou a Seleção Brasileira e foi convocado para a Copa de 74, mas por falta de sorte viu seu desempenho fracassar após uma lesão no tornozelo durante a competição. As seguidas contusões e os problemas no joelho fizeram com que ele encerrasse a carreira no São Paulo, em 1979, quando tinha apenas 29 anos.

Sem condições de continuar jogando, Leivinha tentou ganhar dinheiro no ramo comercial, mas não obteve sucesso. Descobriu então que sua grande paixão era dar aula para crianças. Já há muitos anos o ex-jogador se dedica a esta função. "É algo que me fascina", explica.

Aos 52 anos, além de atualmente trabalhar como coordenador em um projeto para crianças na Prefeitura, Leivinha também acumula a função de comentarista em jogos e programas da Sportv.

Nesta entrevista exclusiva concedida na sede da TV Globo, em São Paulo, o eterno ídolo da torcida alviverde fala muito além de sua passagem pelo Verdão. E deixa claro que aceitaria trabalhar no Palmeiras com uma única condição: "Só se o Mustafá sair da presidência".

 

Palmeiras On Line - Muitos ex-jogadores que atuaram pelo Palmeiras reclamam que o atual presidente do clube, Mustafá Contursi, não os trata com o devido respeito. Como você isso?

LEIVINHA - É um absurdo o que se faz com os ex-jogadores. O clube não tem obrigação nenhuma com ex-atletas em termos de emprego, mas acho que tem que ter um mínimo de respeito. É um absurdo o clube não possuir no elenco nenhum ex-jogador. Vários ex-atletas que criaram raízes no clube mereciam trabalhar dentro da equipe, como acontece em muitos outros clubes, principalmente no futebol europeu. Eu e o Luis Pereira, por exemplo, somos conhecidos muito mais fora do que no Palmeiras.

POL - O que você pensa sobre o presidente Mustafá Contursi?

L - Eu não tenho nada pessoal contra o Mustafá, mas sinceramente não gostei da reeleição dele. O tratamento ruim que ele dá ao ex-jogador já é um motivo de crítica.Também acho que ele à frente do Palmeiras não deu continuidade ao trabalho que antes era feito pela Parmalat, e esta é uma das razões do insucesso do Palmeiras.

POL - O Dudu foi usado durante as eleições, quando o presidente lhe prometeu um cargo e não cumpriu após ser reeleito. Depois, ficou calado. Você acha que os ex-jogadores têm medo de enfrentar o Mustafá?

L - No meu caso não é medo, tanto que estou falando o que estou sentindo. Já o Dudu é muito amigo meu, mas cada um tem seu temperamento. Também é surpresa para mim ele nunca ter se manifestado em relação ao Mustafá. Não posso afirmar com segurança, mas ao que parece o Mustafá quis fazer uma média para conseguir mais votos durante a eleição e usou o Dudu. O que ele me disse foi que o Mustafá sequer cogitou a possibilidade dele trabalhar no clube, foi notícia plantada. Mais um motivo de ter sido usado. Um episódio lamentável. Se eu fosse o Dudu, viria a público e abriria o jogo.

POL - Muitas pessoas não sabem ao certo para qual time você torce. Alguns dizem ser o São-Paulo. Outros garantem ser o Palmeiras. Há quem diga até ser o Corinthians. É verdade que você foi corintiano quando criança?

L - Fui corintiano na infância porque acabei sendo influenciado pelo meu pai, que era corintiano. Mas nunca fui um torcedor fanático. Depois vim para a Portuguesa quando tinha 16 anos, até chegar ao Palmeiras em 1971. Quando me tornei profissional, é evidente que deixei de ser um torcedor. Depois, com a própria rivalidade entre Palmeiras e Corinthians, passei a ficar com muita bronca do Corinthians, justamente pelo clima entre as torcidas. Hoje eu tenho muita admiração pelas equipes por onde joguei. Mas a maior admiração sem dúvida é pelo Palmeiras. Não me considero um torcedor, porque
fui profissional, mas tenho um sentimento muito grande pelo Palmeiras, porque foi onde eu me projetei e consegui tudo o que eu tenho hoje.

POL - Se na época de atleta você recebesse uma proposta do Corinthians, teria aceitado?

L - Não. Eu tinha uma identificação muito grande com a torcida do Palmeiras e não seria legal jogar no Corinthians. A rivalidade era muito grande. Eu só fui jogar no São Paulo para atuar por quatro meses, mas minhas raízes sempre estiveram todas no Palmeiras.

POL - Como você analisa as negociações atualmente, quando os jogadores não honram mais os times em que atuam?

L - Hoje o futebol possui muitos interesses financeiros nas negociações, e isso fez com que se perdessem as raízes. Sou de uma época que em todas as equipes que joguei tive um espírito meio "amador". Sempre honrei os times que atuei com muita dedicação. Atualmente eu não culpo os jogadores, pois eles precisam buscar sua independência. Mas eu preferia muito mais antigamente, quando os torcedores sabiam as escalações das equipes e quando os próprios jogadores mantinham uma amizade entre si. Quem perdeu com isso foi o futebol e principalmente a torcida.

POL - Qual foi a melhor Seleção Brasileira de todos os tempos?

L - (pensa bastante antes de responder) Acho que foi a Seleção de 70. Principalmente do meio-campo pra frente.


POL - E qual foi o melhor Palmeiras de todos os tempos? A Academia do Filpo
Nuñes na década de 60, a segunda Academia do Osvaldo Brandão na década de 70, a equipe do Luxemburgo de 93/94, o time do Luxemburgo de 1996, que marcou mais de 100 gols no Paulistão daquele ano, ou a equipe do Felipão que venceu a inédita Libertadores de 1999?

L - É muito difícil responder essa pergunta. Eu não acompanhei muito a primeira Academia, ainda era garoto. A segunda Academia, do Osvaldo Brandão, eu tive o privilégio de participar. Era um time muito bom, tecnicamente excelente, talvez até melhor que a terceira Academia, do Luxemburgo de 93/94. Eu só acho que a equipe de 93/94 era mais goleadora, e a nossa equipe era mais técnica. Mas foram três Academias fenomenais, é muito difícil falar qual foi a melhor. Acho que tecnicamente eu posso comparar mais o time do Osvaldo Brandão com o do Luxemburgo. Nós tínhamos atletas mais técnicos, jogávamos muito em função do Ademir da Guia, que foi um jogador fabuloso.

POL - Qual foi o melhor e o pior técnico com quem você já trabalhou?

L - O melhor foi o Osvaldo Brandão. Agora é difícil dizer que trabalhei com técnicos ruins. Trabalhei com alguns treinadores bons, outros melhores, mas ruins felizmente eu não tive a oportunidade de trabalhar.

POL - Atualmente você vê algum treinador com o mesmo perfil do Osvaldo Brandão?

L - O Felipão. Lógico que existem algumas diferenças, mas poucas.

POL - Qual a partida que mais o marcou como jogador? Por um acaso foi a final do Paulistão de 74?

L - Com certeza foi a partida contra o Corinthians em 74, onde todos davam a vitória como certa para o adversário. Naquela ocasião, apesar de já termos sido várias vezes campeões, ninguém acreditava no Palmeiras. Mas chegamos lá e conquistamos o título. Foi fantástico, foi a maior vitória que eu tive na carreira.

POL - Durante a competição e até mesmo na decisão de 74 contra o Corinthians, como foi a participação do então já falecido presidente Paschoal Giuliano?

L - A minha época no clube foi praticamente toda sob a gestão do Paschoal Giuliano, o famoso "Bola Sete". A segurança que ele dava aos jogadores era excelente e talvez por isso o sucesso daquele time ser muito bom e vencedor. Os jogadores tinham um respaldo muito grande dos diretores.

POL - Por falar em administrações, em 2001, você e o Luis Pereira foram convidados pelo presidente Mustafá a se tornarem embaixadores do Palmeiras naquele Mundial promovido pela FIFA, que seria realizado na Espanha. O que você tem a dizer sobre esse episódio?

L - Isso também foi uma jogada do Mustafá. Quando saiu o sorteio em La Coruña, eu e o Luis Pereira estávamos em Madrid como convidados para a abertura do novo site do Atlético de Madrid, e o campo do Atlético seria utilizado pelo Palmeiras. Foi uma jogada política. O Mustafá foi muito esperto. Para ele seria interessante chamar a torcida do Atlético, que estava ligada a nós. Fizemos o acordo e ficamos na Espanha para representar o Palmeiras. Conseqüentemente nós iríamos chamar a torcida do Atlético, que por ser a maior rival do Real, com certeza daria uma força para o Palmeiras. Seria interessante, mas infelizmente não deu certo porque a ISL, empresa que patrocinava a competição, faliu.

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