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Entrevista com Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo

Belluzzo: "O Mustafá é um espírito tosco"

Em entrevista exclusiva para o site Palmeiras On Line, Belluzzo conta como está sendo difícil conduzir a organização no movimento "Muda Palmeiras", fala de sua relação com a torcida Mancha Verde e afirma que ainda não sabe se será o candidato à presidência pela oposição na próxima eleição do clube.

Ele é sócio e consultor editorial da Revista Carta Capital e professor titular de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas). Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia). Sócio e consultor da FACAM (Faculdade de Campinas), está incluído entre os 100 economistas heterodóxos mais importantes do século XX. O que mais falta para Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo? A presidência do Palmeiras, claro!

Sócio do Palmeiras desde o início da década de 50, Belluzzo, 61 anos, conhece como poucos os bastidores do clube. Foi por isso, e também por estar cansado da "administração ultrapassada" da atual gestão, que ele resolveu concorrer pela primeira vez à presidência do Palmeiras na eleição de janeiro de 2003. Obteve 77 votos, contra 175 do "todo-poderoso" Mustafá Contursi, hoje vigorando o sexto mandato como presidente. Apesar da derrota, recebeu o reconhecimento da torcida, que acreditava na oposição a esperança da mudança.

No entanto, apesar de todas as expectativas em relação a próxima eleição, que será realizada em janeiro de 2005, Belluzzo dá a entender que deve abandonar a candidatura. O principal motivo é porque serão novamente os aproximadamente 300 conselheiros os responsáveis por decidir quem comandará o clube até o início de 2007. Ainda não será dessa vez que os associados poderão votar.

Em quase três horas de entrevista, realizada no mês de fevereiro no escritório do economista, Belluzzo conta um pouco mais do que sua eterna paixão pelo Palmeiras. Ele fala dos bastidores da vinda da Parmalat, da relação com o presidente Mustafá Contursi e o que pensa do futuro do time em relação a títulos. Também abre uma possibilidade de fazer acordo com a situação, desde que a mesma apresente um conselheiro à altura da ideologia do movimento "Muda Palmeiras".

Não deixe de acompanhar a entrevista abaixo.


PALMEIRAS ON LINE - A torcida palmeirense quer saber: o que esperar do professor Belluzzo em relação ao futuro do Palmeiras?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo - Dadas as condições que as eleições vão ser disputadas, e por conta do tempo que os clubes ganharam para reajustar seus Estatutos, eu vou disputar as eleições em condições muito adversas, já que é novamente o Conselho quem vai eleger o presidente. Minha intenção é tentar manter o movimento de oposição coordenado. As pessoas precisam saber que não somos um grupo político. O trabalho é voluntário e até por isso a organização não ocorre como deveria ser. Como as pessoas têm um baixo grau de politização, elas não entendem que o trabalho coletivo exige um certo sacrifício de suas questões pessoais. Na verdade, eu não me considero um candidato, mas sim um participante do movimento Muda Palmeiras.

POL - Você sempre teve como intenção ser presidente do Palmeiras?

Belluzzo - Não. Eu nunca tive intenção de ser presidente do Palmeiras.

POL - Então o senhor só se candidatou porque não havia outro voluntário?

Belluzzo - Não. A candidatura naquele momento era uma arma de combate político. Me candidatei porque eu tinha condições estatutárias e uma obrigação moral com a torcida e os sócios do Palmeiras. Todos nós pensávamos que o clube fosse avançar na questão administrativa e futebolística após a saída da Parmalat, mas não foi o que aconteceu. Por isso resolvi disputar a próxima eleição, mas o movimento Muda Palmeiras vai estudar quem será o candidato.

POL - Não está garantido ainda que vai ser o senhor o candidato para a próxima eleição?

Belluzzo - Isso não sou eu que decido. Na verdade temos três ou quatro nomes que podem exercer a função.

POL - Quais são esses quatro nomes?

Belluzzo - O Gilberto Cipullo, o Seraphim Del Grande... Eu não sei se têm mais alguém com condições estatutárias para disputar a eleição.

POL - A conselheira Eva Bertacco seria uma boa candidata?

Belluzzo - Acho ótimo (risos). A Eva é uma pessoa muito identificada com o clube. Eu apoiaria a candidatura da Eva.

Nota do POL - Eva Bertacco é conselheira do Palmeiras há 14 anos. Tornou-se oposição em 2002, antes do rebaixamento no Brasileiro, por não concordar com a gestão do presidente Mustafá Contursi. Ela possui condições estatutárias para se candidatar à presidência e é tida como uma das pessoas mais ativas pelos associados.

POL - As reclamações contra o senhor se acentuaram não apenas por parte da crítica, mas também por parte dos verdadeiros torcedores palmeirenses. Nos fóruns da Mancha Verde e do Palmeiras On Line, por exemplo, muitos torcedores destacaram que o senhor, após a eleição em janeiro de 2003, não deu mais satisfações e que faltou uma maior aproximação entre a oposição e a torcida. Foi isso mesmo que aconteceu?

Belluzzo - Há três tipos de torcedor. Um é o cara que te encontra no bar, bate nas suas costas e fala pra você ir em frente. Aí o cara some e nunca mais aparece. Tem também os caras que participam do movimento e estão ali, fazendo trabalho do carregador de pedra. E tem o cara que está sempre descontente, e às vezes nem sócio do Palmeiras é. Eu vejo isso pelas listas de discussão na internet. Existe um pessoal que está sempre reclamando. Eu vi outro dia alguém reclamar que o Belluzzo não aparece na mídia. Então esse cara só vê programa de futebol. Eu não posso ficar toda hora dando entrevistas porque não sou eu o administrador do Palmeiras. A torcida precisa compreender que eu estou disputando uma eleição desfavorável do ponto de vista das regras do clube. É preciso ter muita paciência pra continuar nesse negócio, porque certos momentos a vontade que se tem é deixar pra lá e abandonar tudo.

POL - Qual a sua relação com o presidente Mustafá Contursi?

Belluzzo - Sinceramente eu não tenho diferenças pessoais com ele, ou não tinha até o momento em que ele começa a ser mal-educado. É bom ele abrir o olho, porque eu sei ser bem mais mal-educado. Talvez eu seja o oposicionista atípico. Eu não vou ficar levando o debate pra esse nível. Não é bom para o Palmeiras nem para o movimento Muda Palmeiras. Minha intenção é não transformar o clube numa briga de comadres. Eu não quero manchar o Palmeiras com uma disputa do tipo que ocorreu no Vasco, entre o Eurico Miranda e o Roberto Dinamite. Eu confesso que se isso ocorresse comigo, eu não teria a mesma atitude do Dinamite, pois nós temos temperamentos diferentes, ainda que não pareça.

POL - Você acha então que antes de qualquer coisa, o clube deve ser preservado?

Belluzzo - Claro. Eu torço para o Palmeiras ser campeão, seja comigo ou com o Mustafá. Antes de mais nada, para mim em primeiro lugar está o desempenho do Palmeiras. É isso o que interessa para o torcedor. Parece estranho eu dizer que não tenho ambição de ser presidente do clube. Entrei na disputa porque mais um tempo com essa administração e nós vamos virar um clube médio.

POL - E você acha que o Palmeiras voltará ser campeão tão cedo na elite?

Belluzzo - Iniciamos o campeonato com uma chance baixa de ganhar o título. Voltamos para a Primeira Divisão e o que custava realizar algumas contratações? Se o Mustafá pudesse ser um bom dirigente, a torcida não estaria discutindo os problemas do futebol. Eu já vivi essa situação por 16 anos, vendo aqueles times capengas do Palmeiras que não ganhavam nada porque eram mal administrados. E nós sabemos que hoje o elenco é limitado.

POL - O Mustafá vive dizendo que a oposição é formada por oportunistas. Certa vez chegou a chamá-los de "ordinários e medíocres". Por qual razão o atual presidente afirma isso?

Belluzzo - O Mustafá tem um espírito tosco. Ele não é capaz de entender que fazer oposição não quer dizer necessariamente que você esteja contra a pessoa. Eu sou contra a prepotência e a ignorância, e por isso não vou abrir polêmica com ele. Há um ditado gaúcho que diz que "não se gasta pólvora com chimango".

POL - Você não acha que a sua postura deveria ter sido mais ofensiva contra a atual diretoria na última eleição?

Belluzzo - Quem diz isso não conhece o Conselho do Palmeiras. Às vezes você imagina que gritando e ofendendo as pessoas vai conseguir as coisas, e não é bem assim. A mídia gosta desse tipo de gente. A pessoa que é brava não precisa ficar gritando. O cara que grita muito, na hora H vai afinar.

POL - Após a derrota da oposição na última eleição, o movimento Muda Palmeiras demonstrou ter perdido força junto à mídia. O que de fato ocorreu? A quantidade de colaboradores diminuiu ou a campanha da Série B trouxe satisfação?

Belluzzo - Quando o time começou a disputar as finais da Série B, e conseqüentemente conquistou o título, os palmeirenses recuperaram a auto-estima que estava perdida, o que foi muito bom. Isso deu uma certa afrouxada no movimento. Além disso, as condições estatutárias são adversas. Você tem do outro lado um adversário que montou um cerco dentro do clube. Eu já disse ao Mustafá que vou continuar a brigar pelo clube até eu ser enterrado, porque não concordo da maneira como ele administra o Palmeiras.

POL - Na última eleição realizada em janeiro de 2003, jornais noticiaram que o movimento Muda Palmeiras gastou cerca de R$ 25 mil para divulgar a marca, promovendo encontros e a produção de adesivos, camisetas e até mesmo outdoors. Quem colaborou para tudo isso?

Belluzzo - Todas as colaborações foram voluntárias, doações tiradas do nosso bolso. Nós não podíamos exigir dinheiro de ninguém. Seria até constrangedor chegar numa reunião e pedir para as pessoas colaborarem. Veja este ano, por exemplo. Nós iríamos fazer o programa de rádio, mas não conseguimos recursos suficientes. É difícil você conduzir um movimento como esse.

POL - Na eleição presidencial de janeiro de 2003, o presidente Mustafá Contursi afirmou que se o seu pai fosse vivo, votaria nele. O que o seu falecido pai, que assim como você era conselheiro, achava da administração Mustafá Contursi?

Belluzzo - O Mustafá acabou se aproximando muito do meu pai devido as restrições que ele tinha com o então presidente Delfino Facchina, que eram até excessivas demais. Meu pai achava que o Mustafá não entendia nada de futebol. Mas isso não quer dizer que ele não gostava dele, muito pelo contrário. Talvez o meu pai ficasse muito contrariado com a minha candidatura. Eu tenho certeza que ele votaria em mim. Ele não chegaria ao ponto de cometer essa loucura de votar contra. Quando o Mustafá disse que o meu pai, se vivo, votaria nele na eleição de 2003, eu achei uma suposição desrespeitosa. Minha irmã, Rosa Maria, ficou indignada com essa história. Ela ligou para o Mustafá e disse que não admitiria de maneira alguma que ele usasse o nome do meu pai na campanha política. Isso é baixaria.

POL - Em 2001, o portal "Terra" chegou a noticiar que você e o seu irmão, Luis Augusto Belluzzo, que é um dos quatro vice-presidentes do clube, não estavam se entendendo. Qual a relação entre o senhor e o seu irmão?

Belluzzo - Minha relação sempre foi muito boa com meu irmão. Em 2001, eu fiz algumas críticas contra a administração de futebol do clube. Teve até um diretor, o Luiz Pagnotta, que sugeriu que eu fosse submetido a uma Sindicância. Depois alguém no clube observou que não se coloca um Belluzzo na Sindicância. Em matéria de opiniões sobre futebol, jamais nós chegaremos ao ponto de um rompimento. Meu irmão tem todo direito de ficar com o Mustafá. Ele no fundo acha que eu sou um cara muito fanático, o que é verdade.

Nota do POL - Luis Augusto Belluzzo é irmão do entrevistado e oposicionista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo e um dos quatro vice-presidentes da administração Mustafá Contursi. Tem como principal função cuidar da parte jurídica do clube. Os outros três vice-presidentes do Palmeiras são Afonso Della Mônica, Luiz Pagnotta e José Cyrillo.

POL - Você tentou alguma vez fazer com que o seu irmão mudasse de lado?

Belluzzo - Não. Eu já tentei sim conversar com o Mustafá, mas não existe receptividade. Não é possível que uma pessoa sempre ache que está certa. Ele é muito resistente e se fecha quando qualquer crítica é feita à atual administração. Se eu fosse oportunista como ele diz, eu teria me aproveitado do sucesso da parceria com a Parmalat pra me lançar candidato, mas não fiz nada disso.

POL - Já é certeza que os sócios não irão votar na próxima eleição? Você acredita que somente dessa maneira o presidente Mustafá possa ser derrotado?

Belluzzo - Sim, isso é certeza. O clube não é mais obrigado a fazer a adaptação agora, e sim apenas daqui um ano. Esse Conselho que está aí ainda vai eleger o Mustafá, ou pelo menos a lógica diz isso. Já para a próxima eleição de 2007, quando aí sim haverá a adaptação do novo estatuto, as chances são outras. A esperança dos atuais dirigentes que não querem largar o osso é que nesse período eles consigam passar uma lei que revogue ou mude os dispositivos do Código Civil. O importante para a oposição é trabalhar os sócios do Palmeiras que estão lá para eles votarem corretamente na escolha dos conselheiros. Por enquanto, é isso o que temos que fazer.

Nota do POL - Dos 300 conselheiros do clube, 100 são eleitos pelos sócios, 100 são indicados pelo Conselho de Orientação e Fiscalização (COF) e os outros 100 são os conselheiros vitalícios.

POL - Mas esse trabalho de convencimento dos sócios já não deveria estar sendo feito? Você não acha que o movimento está lento nesse sentido?

Belluzzo - O trabalho vai ser feito esse ano com muito método e disciplina. Nós temos que deixar um pouco as "abóboras" se acomodarem pra ver quem é quem no movimento e quem vai ficar ou não. Temos que começar a trabalhar, conversar com os sócios e apresentar um programa de trabalho sério. Se nós estamos disputando a eleição porque somos críticos da gestão do Mustafá, nós temos que chegar para os sócios e conselheiros e mostrar os erros de trabalho. Nós não estamos oferecendo uma troca de favores. Eu acho que os sócios devem pensar bem no futuro do clube deles.

POL - Em entrevista para o Jornal da Tarde do dia 1º de dezembro de 2003, o presidente Mustafá Contursi afirmou que o acesso do Palmeiras de volta à elite ocorreu porque a oposição ficou ausente e omissa nesse período. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Belluzzo - Depois da derrota de 7 a 2 para o Vitória, houve aquele desmanche e a torcida acabou levando o time à ascensão para a Primeira Divisão. Eu nunca vi um processo tão interessante como esse na Segundona. Foi mesmo um fenômeno de solidariedade. Eu acho que o Mustafá deveria ver isso sob esse ângulo. A oposição ficou calada e procurou perturbar o mínimo possível pra facilitar a volta do clube à elite. No Palmeiras existem duas perspectivas. O Mustafá sempre fala do clube e do time na perspectiva dele. E eu sempre quero falar do Palmeiras na perspectiva do que o torcedor está querendo no momento. Não é apenas se eu vou ganhar ou deixar de ganhar votos. Isso pra mim é secundário. O que interessa é que o clube ande bem a curto e longo prazo.

POL - O que o senhor pensa das categorias de base do Palmeiras atualmente?

Belluzzo - Se você olhar os clubes paulistas, o Palmeiras é o que tem o menor índice de aproveitamento na descoberta de novos atletas. Eu acompanhei esse time que foi campeão paulista de juniores, e depois perdeu a Copa SP em 2003. Era claro que ali você tinha um potencial bem razoável. O Vagner, o Diego, o Alceu, e também o Edmílson, que infelizmente deixou o clube são excelentes jogadores. Só o Diego que precisa ser melhor aproveitado. Já o time da Copa SP deste ano revelou apenas o William. Mas esse trabalho de base tem que ser uma coisa sistemática, não pode apostar apenas na sorte.

POL - Você considera a torcida palmeirense muito impaciente com os atletas revelados na base?

Belluzzo - O Palmeiras não tem tradição em revelar porque há um círculo vicioso. O torcedor palmeirense sempre esteve muito habituado a ver grandes times, cheio de estrelas. E quando surge uma leva de novos garotos, a torcida se impacienta. O que ficou de positivo na vitória da Segunda Divisão foi o fato de que a torcida incorporou essa idéia do jogador formado no clube, apoiando em todos os momentos.

POL - Uma polêmica que desde a eleição de janeiro de 2003 gerou muita confusão. O que o senhor achou da postura da torcida organizada Mancha Verde em relação à eleição presidencial. Como sabemos, a Mancha Verde não apoiou o senhor, nem o presidente Mustafá Contursi, alegando que não iria se meter na política do clube. É verdade que foi você mesmo que pediu para os diretores da Mancha não se meterem na eleição, justamente para não sofrer represálias da situação?

Belluzzo - Quando a Parmalat fez o acordo com o Palmeiras, em 1992, o pessoal da Mancha pintou os muros do clube e fez muitas críticas. Marquei um encontro com eles, nós conversamos e eu apresentei o projeto, mostrando quais seriam os benefícios para o clube. Eles só me disseram que queriam ver resultados. E acabaram vendo. No caso da eleição, a TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras) me procurou para me apoiar. Eu acho que você deve deixar a torcida tomar a iniciativa de apoiar ou não. Eu sou contra manipulação. Entre clube e torcida deve existir uma relação transparente. Eu disse ao Paulo Serdan e ao Jânio que eu não considerava isso uma atitude correta, e eles teriam toda liberdade para me apoiar ou não. Eu me dou muito bem com a Mancha. Eles me fizeram uma linda homenagem na data de comemoração dos 10 anos da conquista do Paulistão de 93. Agora, o meu filho só quer saber de ir para o estádio com a camisa da Mancha. Inclusive não deixaram ele entrar dentro do clube com ela. Acho que a torcida uniformizada tem um papel muito importante no futuro do clube. A razão de existência deles é o time de futebol, e não é bom para eles quando o time vai mal.

POL - O que o senhor quis dizer com essa história de manipulação?

Belluzzo - Eu disse ao Paulo Serdan que o Palmeiras deveria ter no seu orçamento uma verba anual para ajudar a Mancha e a TUP a disputar o carnaval. Se eu fosse presidente, eu iria fazer dessa maneira e falei isso para o Serdan. Você tem que ter coragem suficiente pra dizer que torcida uniformizada é um fenômeno que faz parte do futebol brasileiro integrado ao clube, e que deve ser tratada de uma maneira institucionalizada. Eu não acho que essa relação informal seja boa para ninguém. Tenho certeza que o pessoal da Mancha e da TUP acha que não é boa também.

POL - Ex-atletas e heróis palmeirenses tem sido ignorados e marginalizados no Palmeiras. Como o senhor encara essa questão?

Belluzzo - Eu olho os exemplos dos clubes europeus. Entre os dirigentes do futebol brasileiro há uma espécie de pacto em dizer que o Brasil não é Europa. E, no entanto, nós todos somos um pouco europeus. Na Europa a valorização e aproveitamento do ex-jogador é uma regra, vide os exemplos do Luis Pereira, Chinesinho e Mazzola. Você imagina como não é importante para esses jogadores que estão se formando terem um ex-jogador bem sucedido ensinando. É um processo em que você vai transferindo essa herança pra frente. A restrição que o Mustafá tem com os ex-atletas é que ele acha que eles criam panelinhas. Mas dá para evitar isso, desde cada um cumpra sua função da melhor maneira possível.

POL - Por falar no passado, qual o seu Palmeiras de todos os tempos?

Belluzzo - O Palmeiras de 1965, que representou a Seleção Brasileira. Era o time mais completo, pois não tinha nenhum jogador tecnicamente inferior. Depois eu escalaria o time de 93 e 94. E em terceiro lugar a equipe dos anos 70, que teve um desempenho geral melhor que os outros. Conseguia aliar regularidade e brilho. Só o Santos do Pelé teve um time melhor que esse.

POL - Qual jogo do Verdão que mais o emocionou?

Belluzzo - O primeiro jogo que me emocionou foi a vitória sobre o Santos em 1959, por 2 a 1. Depois vem a vitória de 4 a 0 sobre o Corinthians, no Paulista de 1993. E entre os jogos que não foram decisivos, o 7 a 6 que o Palmeiras perdeu do Santos, no Rio-SP de 1958, e àquele jogo contra o Flamengo que o Palmeiras ganhou de virada, na Copa do Brasil de 99, por 4 a 2. A final da Copa Rio de 51, contra a Juventus (da Itália) eu escutei pelo rádio, mas posso dizer que foi a conquista mais importante do clube. Na volta para São Paulo, o time veio de trem parando nas estações. Essa conquista aumentou muito a adesão de novos torcedores.

POL - E qual foi a maior decepção com o Palmeiras?

Belluzzo - Primeiro vem a queda para a Segunda Divisão. Lógico que não foi um jogo em si, mas acabou sendo todo um processo. Depois vem a derrota para a Internacional de Limeira, na final do Paulista de 86, onde jamais poderíamos ter perdido aquele título. Outro jogo que me marcou muito foi o empate com o Corinthians, em 54, quando jogamos de camisas azuis. Eu ainda era muito garoto e o impacto acabou sendo grande.

POL - O marketing do Palmeiras inexiste há muito tempo. Nem publicações, nem site amigável e relacional, nem publicidade, nem merchandising, nem museu físico ou virtual com loja de produtos, nem divulgação de produtos licenciados, nem a menor simpatia. O que o senhor planeja para o departamento de marketing do Palmeiras?

Belluzzo - Essa é uma dimensão fundamental para o Palmeiras. Ter um departamento de marketing muito diversificado e ativo. Por mais que a gente goste de ir ao campo, hoje em dia o futebol é um produto da televisão. E quem não tem uma boa mídia não consegue em nenhum caso mobilizar um número maior de torcedores. Eu vejo isso com muita tristeza porque o Palmeiras não impulsiona essa área. Veja o exemplo do site, que só está no ar graças ao dinheiro próprio do Mário Giannini.

POL - Na questão do site, por exemplo, antigamente existia um canal de comunicação onde o torcedor tinha a possibilidade de enviar sugestões e críticas. Hoje, isso não existe mais. Como o senhor vê essa falta de interação entre torcida e clube?

Belluzzo - Isso é revelador porque mostra claramente a realidade com que o clube é administrado, de uma maneira atrasada e fechada. E tudo isso rolando em torno da figura de uma única pessoa. Como você pode imaginar um clube que tem 15 milhões de torcedores, que em qualquer lugar do Brasil é querido, Campeão do Século, e está sendo tratado como um clube de várzea? A atual administração está simplesmente subestimando o potencial do clube. Podia na verdade ter feito outras associações e ter buscado novos parceiros.

POL - O Mustafá fala da falta de verba, e por isso não expande, por exemplo, o museu do Palmeiras. A falta de estrutura na divulga> ção da marca Palmeiras está mesmo relacionada com a falta de dinheiro?

Belluzzo - O problema é que não há espaço para pessoas de fora opinarem. Se perdem muitas oportunidades porque os empresários e publicitários não querem se aborrecer por causa da conduta do presidente. Às vezes eu vejo na cara de alguns diretores que eles mesmos sofrem, pois possuem boas intenções, mas também não podem falar nada.

POL - Mesmo que o senhor fosse eleito, muitos dos conselheiros da situação que verdadeiramente "mandam" no clube permaneceriam por lá, como os diretores do Conselho Deliberativo e do Conselho de Orientação e Fiscalização. Como o senhor tocaria um projeto próprio com eles presentes?

Belluzzo - Nós temos que buscar uma eleição que traga pra dentro do clube gente que tenha vontade de trabalhar pelo Palmeiras. Eu pessoalmente acho que se você muda o estilo de administração, as pessoas mudam também. É impensável você administrar um clube desse tamanho sozinho. As pessoas mudam e é nisso que eu vou acreditar.

POL - O ex-diretor de futebol da Parmalat, José Carlos Brunoro, confidenciou a mim que caso o senhor tivesse sido eleito em janeiro de 2003, ele voltaria a trabalhar no clube. O que de fato você e o Brunoro conversaram a respeito do futuro do Palmeiras?

Belluzzo - Eu acompanho o trabalho do Brunoro desde os tempos da Parmalat. Na festa dos 10 anos do Paulistão realizada na Mancha, eu estava sentado ao lado do Edmundo e ele me disse que o papel do Brunoro foi fundamental para administrar àquela fogueira de vaidades dos atletas no time de 1993. O trabalho do Brunoro foi muito bem conduzido e coordenado. Ele é uma pessoa competente e muito conhecedor do esporte em geral. Certamente ele voltaria a trabalhar comigo na presidência.

POL - O presidente Mustafá afirmou no final de 2003 que deixaria o cargo caso o Palmeiras subisse. O Palmeiras subiu e ele continua lá? Você acha que ele realmente vai abandonar o cargo?

Belluzzo - Isso foi conversa mole. Conhecendo ele bem, você sabe que não tem a menor credibilidade.

POL - Em entrevista para o Jornal da Tarde do dia 1º de dezembro de 2003, o presidente Mustafá afirmou que confia em aproximadamente 30 conselheiros. Visto que ele obteve pouco mais de 170 votos na última eleição, você avalia que os outros 140 podem ser alvos para votos pela oposição?

Belluzzo - Ele disse que confia só em 30?! Eu me dou bem com todos dentro do Conselho. Não tenho dúvida de que os conselheiros são bem capazes de votar na oposição. Só que ainda existe uma grande dependência do Mustafá. Em alguns casos até uma certa insegurança, pois se a oposição ganhar, eles não saberão o que vai acontecer com eles. Eu não posso me mover por esse tipo de expectativa, e sim pensar em buscar os votos deles.

POL - Qual conselheiro da situação teria condições de assumir a presidência do Palmeiras em janeiro de 2005? Você acha que existe um nome que seja de consenso entre a situação e a oposição? Falam no nome do Carlos Facchina...

Belluzzo - Em 2001 eu falei para o Facchina ser o candidato à presidência. Depois tive outra conversa com ele em 2002 e pedi para ele se candidatar novamente. O Palmeiras precisa de alguém da situação que se conscientize que o clube necessita de uma transição, de sair dessa dependência do Mustafá. Eu acho que existem outros conselheiros da situação que seriam muito bem aceitos pela oposição.

POL - Se o Mustafá chegar para o movimento "Muda Palmeiras" e propor um nome que seja de consenso entre os dois lados, a oposição retira sua candidatura para 2005?

Belluzzo - Não tenha dúvida que sim. Se nós entendermos que é uma candidatura que vai fazer essa transição, que encaminhará o Palmeiras para um outro padrão de administração, que não vai manter esse mesmo sistema atual, não tenha dúvida que nós vamos articular a candidatura desse possível conselheiro.

POL - No caso esse conselheiro seria o Carlos Facchina?

Belluzzo - De alguém que se comprometa com uma mudança no Palmeiras. Que leve o Palmeiras para uma coisa mais aberta e clara. Tem que ser um compromisso firmado em torno de questões programáticas e administrativas. E também pra dar uma oxigenada na diretoria. O Mustafá está ali defendendo o cargo dele. E a oposição está defendendo uma mudança. Se o retorno da mudança for um conselheiro da situação, nós vamos apoiá-lo. Nossa questão é política e administrativa, e não pessoal.

POL - Uma das maiores vontades da torcida palmeirense é o reconhecimento da conquista na Copa Rio de 1951 como título mundial, e os títulos do Robertão e Taça Brasil como Campeonato Brasileiro. Entretanto, a sensação é que a diretoria está fazendo muito pouco para conseguir tais objetivos. O senhor sabe como anda a questão?

Belluzzo - Em relação a Copa Rio, eu sei que o Fluminense, campeão em 1952, fez formalmente um pleito junto à FIFA. E o Palmeiras logo em seguida também fez. A Copa Rio foi de fato organizada pela FIFA, portanto tinha caráter de um torneio internacional interclubes, muito mais qualificado que esse ganho pelo Corinthians. É só você pegar os times participantes e verificar. Agora não há razão nenhuma para a CBF deixar de reconhecer a Taça Brasil e o Robertão como Campeonato Brasileiro. É uma questão de bom senso, já que ambos os torneios eram classificatórios para a Libertadores. Isso daria uma maior uniformidade à própria competição. E veja você, o Palmeiras ficou 16 anos na fila e ainda é o maior campeão nacional do país.

Nota da POL - O Palmeiras foi apontado pelo jornal Folha de São Paulo como o maior vencedor de competições nacionais que tiveram duração de pelo menos três anos consecutivos. Foram quatro Campeonatos Brasileiros (1972, 73, 93 e 94), dois Torneios Roberto Gomes Pedrosa (67 e 69), duas Taças Brasil (60 e 67), uma Copa do Brasil (1998), uma Copa dos Campeões (2000) e cinco Torneios Rio-SP (1933, 51, 65, 93 e 2000).

POL - O senhor, ao lado do conselheiro Paulo Nicoli, foi um dos responsáveis por ter trazido a Parmalat ao Palmeiras. O acordo de co-gestão foi brilhante para ambas as partes, e segundo a FIFA, foi um dos dez casos mais bem sucedidos na história do futebol mundial. Conte um pouco dos bastidores da vinda da Parmalat ao Palmeiras e qual foi a postura dos diretores palmeirenses e do presidente Mustafá Contursi, que na época ainda estava apenas como conselheiro.

Belluzzo - O Paulo Nicoli tinha relação de amizade com o Gianni Grisendi (presidente da Parmalat na época), e trabalhou comigo na Secretaria de Relações Internacionais do governo Fleury. O Paulo chegou pra mim e disse que a Parmalat estava disposta a ingressar no mercado esportivo brasileiro, e nós acabamos nos reunindo para uma conversa com o Grisendi. Não existia nada de Palmeiras na história. Primeiramente, a Parmalat estava interessada em comprar um clube, que no caso era o Paulista de Jundiaí. Mas não houve acordo. Cheguei para o Grisendi e perguntei porque ele não tentava uma associação com o Palmeiras, um clube de origem italiana e que já estava há um tempão na fila. Ele me respondeu dizendo que um acordo com o Palmeiras seria muito complicado, que era um time atrapalhado e de difícil acesso com os dirigentes. Mesmo assim ele topou que apresentássemos a proposta ao clube, e imediatamente nós procuramos o conselheiro Clodoaldo Antonangelo, uma figura fantástica, que intermediou a conversa com o Carlos Facchina. Ele achou a proposta interessante, e já na segunda reunião o Mustafá esteve presente. Foi claro comigo, dizendo que dentre tantas propostas que ele havia recebido, a da Parmalat era a que mais o atraía. Após isso, o Facchina e o Mustafá tiveram a missão de conversar e explicar o acordo com a Parmalat pessoalmente com cada conselheiro, e isso eles fizeram de maneira brilhante. Apenas seis conselheiros votaram contra o acordo. Depois eu me afastei do clube, até porque não queria que isso fosse interpretado como uma espécie de trampolim político. O que posso dizer é que a parceria foi um sucesso, e no período de definição do contrato, tanto o Facchina quanto o Mustafá foram muito positivos a favor do acordo.

Nota da POL: O acordo com a Parmalat foi assinado em 07 de abril de 1992 e durou até dezembro de 2000. Nos quase oito anos de parceria, foram 38 campeonatos disputados, 20 finais e 11 títulos conquistados. A primeira partida do clube com o patrocínio da multinacional italiana estampada na camisa aconteceu no amistoso entre Palmeiras e Cruzeiro, jogo que o Verdão venceu por 1 a 0, gol do ponta esquerda Paulo Sérgio.

POL - No período de co-gestão entre Palmeiras e Parmalat, ocorreu algum fato que tenha arranhado a parceria?

Belluzzo - Em 1994, o Palmeiras fez uma excursão para o Japão e voltou às vésperas da segunda partida contra o São Paulo, pela Taça Libertadores. Na ocasião, o Brunoro pediu uma reunião urgente, e nós insistimos muito com a direção do clube para que essa viagem fosse cancelada. Tarde demais, pois o compromisso já estava firmado. E nós perdemos àquela Libertadores por causa disso. Nós havíamos feito uma partida memorável contra o São Paulo pela primeira partida, quando o Zetti fechou o gol e o jogo acabou 0 a 0. Depois desse episódio, o Mustafá quis falar comigo e pediu para eu conversar com o Grisendi, explicando que havia uma indisposição terrível entre eles. A conversa aconteceu e acabou sendo pouco agradável. Apesar de sermos amigos, o Grisendi estava muito irritado com o Mustafá. Eu disse a ele que só estava lá porque pretendia preservar o contrato.

POL - Qual o real motivo da saída da Parmalat do Palmeiras?

Belluzzo - Haviam algumas dificuldades de relacionamento entre as duas partes. Mas a saída da Parmalat já tem a ver com o fato da empresa ter crescido nacionalmente. Eles se expandiram muito depressa e faturaram demais no país. Tanto que quando saíram, foram expandir seu mercado em outros países.

POL - O Palmeiras não poderia ter aproveitado melhor a parceria com a multinacional? Quando a Parmalat saiu, o presidente Mustafá afirmou que o clube tinha R$ 50 milhões em caixa. Onde foi parar esse dinheiro?

Belluzzo - Certamente poderia ter aproveitado muito mais. A informação dos balanços de 2000 apontava que o clube tinha R$ 40 milhões. O Palmeiras jogou todo esse dinheiro fora nas mais de 50 contratações de jogadores que fez sem o mínimo de planejamento. Vamos pegar o exemplo do São Paulo esse ano. A diretoria viu quais eram as deficiências e foi buscar os jogadores certos para cada posição. Confesso que o grande teste para o time do Palmeiras será o jogo contra o São Paulo. E pelo que vejo, apesar de tudo, o Palmeiras é o time que coletivamente tem mais qualidade para encarar o São Paulo do que o Santos.

POL - A imprensa tem noticiado que existem pontos obscuros na parceria Parmalat-Palmeiras e que caberá ao Poder Judiciário investigar essas denúncias. O que o senhor pensa a esse respeito?

Belluzzo - As informações que eu tenho é que tudo foi feito corretamente na parceria. A Parmalat quebrou e a primeira reação da imprensa foi ligar o assunto ao futebol. Mas para isso são preciso provas. Eu outro dia assisti na televisão uma coisa ridícula, onde o ator de um programa esportivo, o Cacá Rosset, perguntava se os títulos do Palmeiras valiam ou não. Se for assim, vai ter que investigar também os títulos do São Paulo por causa da Círio (o presidente da Círio, Sergio Cragnotti, foi preso recentemente) e os do Corinthians por causa da Batavo.

POL - O jornal Folha de São Paulo noticiou que o Palmeiras fechou o ano de 2003 com um débito de R$ 10 milhões, com pouco mais de R$ 300 mil na conta. A oposição já pediu explicações em relação a isso?

Belluzzo - Eu ainda estou examinando profundamente os balanços porque ninguém comprovou mesmo se essa informação é verdadeira ou não. Apesar da arrecadação de público ter aumentado, é fato que na Série B houve uma redução de cotas de TV e patrocínio.

POL - O jornalista Mauro Beting não se cansa de dizer que o Palmeiras é conhecido mundialmente por seus títulos, e não por possuir piscinas aquecidas. Você acha o clube deve ser administrado de maneira diferente do futebol?

Belluzzo - Eu sempre fui favorável em separar uma coisa da outra. As dinâmicas, as receitas e o financiamento são diferentes. O Palmeiras deve ser visto como um time de futebol que tem um clube social. O Mustafá tem uma certa indisposição com o futebol. Em uma competição que o Palmeiras foi jogar na Europa, eu fui assistir e estava na porta do hotel conversando com o Grisendi e o Mustafá. Já os jogadores estavam entrando no ônibus. No mesmo instante, o Mustafá disse: "Ainda bem que esses caras foram embora e a gente pode conversar tranqüilo". O Grisendi virou pra mim e falou, "Poxa, mas o Mustafá tem certeza que ele é presidente de um clube de futebol?". Então você nota um ressentimento, uma raiva do jogador. A mentalidade da situação é que os jogadores atualmente só pensam em ganhar dinheiro. Não que isso não ocorra, mas a realidade profissional é essa atualmente.

POL - Muitos conselheiros da situação afirmam que o senhor mal conhece o clube porque não o freqüenta. Isso é verdade?

Belluzzo - 90% dos que me criticam começaram a ir ao clube depois que eu já era um freqüentador. Eu sou sócio do Palmeiras desde os cinco anos. Conheço onde as coisas estão e onde elas foram. Pegava o bonde Lapa-Vila Mariana na Avenida Paulista e ia nadar e bater uma bola. Eu era torcedor de assistir jogo no alambrado do Parque Antarctica. Tem gente lá que acabou de chegar. Hoje, por exemplo, vou a todos os jogos. Eu fui ao jogo Palmeiras e Santos e não vi ninguém por lá...

POL - Talvez porque o ingresso estivesse caro... O senhor paga ingresso quando vai ao Parque Antarctica?

Belluzzo - Claro. E compro ingresso na fila como todo mundo.


Adriano Vasconcelos* - É engraçado que muita gente liga para a assessoria da Muda Palmeiras me procurando e perguntam porque o Belluzzo nunca está presente e nunca vai aos jogos. Só que essa semana ele foi ao jogo e não havia ninguém da Muda Palmeiras. As pessoas exigem uma posição do Belluzzo que quando ele vai ao estádio, leve uma bandeira e fique gritando, "Olha, eu estou aqui".

*É assessor de imprensa do movimento Muda Palmeiras e acompanhou ao lado de Belluzzo a entrevista.


POL - Durante os últimos anos surgiram diversas organizações palmeirenses, como dezenas de listas de discussão na internet, ONGs e confrarias. Há inteligência voltada para o clube nestes grupos? Faz parte do seu objetivo aproveitar essa imensa capacidade e disposição dos torcedores?

Belluzzo - É um desperdício não aproveitar essa capacidade dos torcedores. Poucos clubes usufruem dessa disposição. O futebol é um negócio muito conservador. A democratização e uma maior participação vem de fora para dentro dos clubes. Sempre haverá uma hierarquia. Mas é claro que precisa estar funcionando em sincronia com o espírito da comunidade. O estilo Mustafá de administrar não vai resistir muito tempo. E esse novo período está para chegar. O clube é uma referência de sociabilidade com o torcedor. É uma identificação, que suscita desse desejo de participar. O que me irrita no Mustafá é que ele parte do princípio que sabe mais do que os outros. Por isso que eu falei de seu estilo tosco. É uma coisa grotesca.

POL - Sempre se falou e nunca foi implantado o projeto sócio-torcedor. É sabido que 99,9% dos palmeirenses só querem saber do time do Palmeiras e isso poderia ser revertido para a estrutura do futebol, inclusive na contratação de jogadores. Se o senhor for eleito em janeiro de 2005, o sócio-torcedor sai do papel?

Belluzzo - O projeto de sócio-torcedor precisa estar atrelado na estratégia de marketing. Se você não tem estrutura, não consegue fazer o trabalho. É preciso dar alguma coisa em troca para o torcedor. A campanha da Segundona era o momento ideal de ser feito um trabalho de angariar o sócio-torcedor, onde toda a receita seria voltada exclusivamente para o futebol. Veja o exemplo do Botafogo, através do Bebeto de Freitas. Ele fez um trabalho incrível. Se você comparar o potencial do Botafogo com o do Palmeiras, é brincadeira. O que ele conseguiu lá foi um milagre.

POL - O Botafogo fez, por exemplo, uma excelente parceria com o Bob's, praticamente igual a que o São Paulo fez com o Habib's...

Belluzzo - Na questão dos serviços oferecidos, será que o Palmeiras não podia fazer uma coisa mais atraente para o seu torcedor? Eu confesso que não consigo compreender qual a lógica dos caras que estão lá no Palmeiras. Tudo parece perfeito para eles. Nós deveríamos servir de exemplo para os outros clubes. Mas por enquanto isso é apenas um sonho.

POL - A Palmeiras SA existe. O clube socio-desportivo é regional, mas o futebol palmeirense é de interesse mundial e precisa de profissionalismo e investimentos. Fale sobre seus planos para a SA alviverde.

Belluzzo - A Palmeiras SA foi criada por uma circunstância, até por conta da transferência de jogadores do Palmeiras para a Parmalat. Não é porque você é clube empresa que não vai ter percalço. Os clubes italianos, por exemplo, viraram empresa e quebraram. O importante é ter uma estrutura administrativa flexível, fazer uma gestão financeira responsável e apresentar os resultados para toda torcida. Tem uma lógica usada nas decisões do Palmeiras de que se faz economia gastando pouco. Mas certas vezes é preciso gastar pra ganhar mais dinheiro. Se você tem um elenco qualificado, o time vai disputar mais finais e terá mais chances de ser campeão. Administração de um clube deve ser assim. Se isso chama clube-empresa ou não, é outra questão. O futebol é hoje um business. Existe o interesse da televisão e da mídia em geral. O futebol movimenta um enorme aparato de informação e se tem os interesses do marketing. É preciso existir uma estrutura administrativa que responda a todas essa exigências.

POL - Na eleição de janeiro de 2003, após o término da contagem dos votos, o senhor rompeu os portões da Rua Turiassú e foi falar com centenas de torcedores que o aguardavam. Foi carregado e teve seu nome gritado por todos. O que o senhor sentiu no momento?

Belluzzo - A torcida do Palmeiras depositava uma esperança muito grande na mudança e na minha vitória. Então eu fui conversar com o torcedor após a eleição para agradecer e prestar alguma satisfação por tudo o que eles haviam feito durante a campanha. Foi brilhante demais.

POL - Gostaria que o senhor deixasse um recado para a torcida palmeirense e o que ela pode esperar do professor Belluzzo para os próximos anos.

Belluzzo - Minha mensagem é que nós precisamos mudar. Eu nunca senti tanta urgência de renovar a administração do Palmeiras. Antes de mais nada, mesmo nesse ano de campanha eleitoral, a prioridade é que o time vença as competições em que ele está disputando. Daqui há dez anos ninguém vai lembrar se o Belluzzo disputou a eleição, mas sim que o Palmeiras ganhou algum título. Essa idéia de que você vai deixar sua marca no clube é uma bobagem. Nós somos torcedores e ao mesmo tempo instrumentos dele. Para mim é muito mais importante que o clube siga seu caminho bem, com uma administração que pense grande, do que ter meu nome gritado.

Nota do POL - Os números da eleição em janeiro de 2003:

265 conselheiros votaram nesta segunda-feira
175 optaram por manter Mustafá Contursi por mais dois anos na presidência
77 escolheram Luiz Gonzaga Belluzzo
13 conselheiros optaram por anular os votos
22 simplesmente faltaram
30 policiais militares fizeram a segurança em torno do Parque Antártica; outros 60 poderiam ser acionados a qualquer momento.
Dados: Gazeta Esportiva.net

Thiago Gomes, Belluzzo e Fábio Finelli

 

 

 


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